Fazenda vai usar IA para rastrear movimentações financeiras de fintechs e combater lavagem de dinheiro

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nesta quinta-feira (28/08) que a Receita Federal passará a utilizar inteligência artificial (IA) para fiscalizar fintechs e fundos de investimento com o mesmo rigor aplicado ao sistema bancário tradicional.
A medida é uma resposta direta à Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal e Receita, que revelou o uso sofisticado de fintechs por organizações criminosas — como o Primeiro Comando da Capital (PCC) — para lavar dinheiro e ocultar patrimônio.
“A farra das fintechs e fundos de investimento a serviço de grupos criminosos vai acabar”, afirmou Haddad em entrevista à TV Globo.
Como a IA vai atuar
A tecnologia será usada para:
- Rastrear entradas e saídas de recursos;
- Identificar movimentações atípicas (como operações de alto valor sem justificativa econômica);
- Localizar beneficiários finais de transações;
- Mapear redes complexas de empresas de fachada e contabilidade paralela.
“Quem abastece as contas, como se dão as movimentações, para onde foi o dinheiro. Quem está fazendo o quê. Movimentações atípicas, entra e sai sem identificação clara, tudo isso a nossa IA vai pegar. Vamos seguir o dinheiro do criminoso”, destacou o ministro.
R$ 52 bilhões ligados ao crime organizado
Segundo apurações da Receita, cerca de R$ 52 bilhões transitaram por fintechs associadas ao crime organizado nos últimos quatro anos. Parte desse montante foi gerada por esquemas de adulteração de combustíveis e sonegação fiscal, com o dinheiro sendo canalizado por uma rede de empresas fictícias e fundos de investimento.
Fintechs terão as mesmas obrigações dos bancos
A Receita Federal publicou, no Diário Oficial da União desta sexta-feira (29/08), uma nova Instrução Normativa que coloca as fintechs sob o mesmo regime de transparência e prestação de contas dos bancos.
A partir de agora, essas instituições deverão:
- Informar à Receita todas as movimentações acima de R$ 5 mil (pessoas físicas) e R$ 15 mil (jurídicas);
- Identificar titulares reais de contas;
- Fornecer dados para o sistema e-Financeira, usado para análise de operações suspeitas.
Um avanço no combate à criminalidade financeira
Haddad destacou que a sofisticação do crime organizado exige respostas igualmente avançadas:
“A fiscalização da Receita tem que ser colocada à disposição dos órgãos de combate ao crime organizado. Precisamos decifrar o caminho do dinheiro, que é muito sofisticado.”
O ministro ressaltou ainda que o sequestro de recursos ilícitos é essencial para enfraquecer a estrutura financeira de facções como o PCC.
Fim do vácuo regulatório
Durante anos, fintechs exploraram uma brecha regulatória para operar com menos fiscalização. Agora, com a aplicação de IA e a equalização das regras, o governo reafirma que não haverá “paraíso financeiro” para o crime.
“Depois de hoje, o crime organizado vai ter que encontrar outros meios”, afirmou Haddad.