Venezuela confirma diálogo com EUA e reforça doutrina bolivariana
Em um movimento estratégico que busca equilibrar a tensão geopolítica com a estabilidade regional, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, confirmou nesta quarta-feira (21) a existência de um “diálogo produtivo” com os Estados Unidos. Durante reunião com representantes do Poder Executivo, a líder venezuelana destacou que o país não tem receio de enfrentar as divergências mais sensíveis, desde que o processo seja pautado pela diplomacia e pelo respeito à soberania nacional. A declaração ocorre em um momento de extrema fragilidade, semanas após bombardeios na Grande Caracas que deixaram dezenas de mortos.
A fundamentação desse diálogo, segundo Rodríguez, repousa na herança histórica de Simón Bolívar. Ela estabeleceu um paralelo direto entre o momento atual e o século XIX, contrapondo o “bolivarianismo” ao “monroísmo” (Doutrina Monroe). Para o governo venezuelano, a diplomacia atual é uma ferramenta de resistência contra o que classificam como tentativas de expansionismo e hegemonia de Washington sobre a América Latina e o Caribe. A estratégia visa posicionar a Venezuela não como uma colônia ou “vassala”, mas como uma nação independente que negocia em pé de igualdade.
A união regional permanece como o pilar central da política externa de Caracas. Delcy Rodríguez enfatizou a manutenção das relações estreitas com Cuba, mencionando o apoio recebido do presidente Miguel Díaz-Canel após os ataques de 3 de janeiro. O bombardeio em solo venezuelano vitimou 32 cidadãos cubanos que integravam a guarda pessoal de Nicolás Maduro, fato que, segundo a presidente interina, apenas fortalece a “unidade dos povos” contra intervenções externas. A retórica oficial defende que a América Latina deve se erguer como uma “grande potência” idealizada por Bolívar, capaz de impor sua visão através do entendimento e não da força.
A isonomia nas relações internacionais é o ponto de honra defendido pelo Executivo venezuelano. Ao mesmo tempo em que abre canais de conversação com a Casa Branca, o governo mantém uma postura de confronto ideológico, criticando nações vizinhas que optariam pela “vassalagem”. Para Rodríguez, estar na vanguarda desta batalha histórica é uma questão de dignidade nacional. O diálogo com os EUA, portanto, não é apresentado como uma rendição, mas como uma manobra diplomática necessária para estancar a violência e buscar soluções para as sanções econômicas que sufocam o país.
O perfil altamente atualizado da diplomacia venezuelana busca usar o diálogo para ganhar tempo e espaço internacional, enquanto tenta reorganizar internamente as áreas atingidas pelos recentes ataques. A presidente interina concluiu seu pronunciamento reforçando que a autoestima do povo venezuelano e a solidariedade de aliados regionais são o que encorajam a nação a seguir neste processo “inescapável e inevitável” de integração latino-americana. A mensagem é clara: a diplomacia é o caminho escolhido, mas a soberania é inegociável.
Enquanto a grande mídia foca na crise humanitária, o governo tenta pautar a discussão sobre a legitimidade de sua resistência e a validade de seus princípios históricos. O desfecho dessas conversas com Washington determinará se a região entrará em um período de distensão ou se o conflito escalará para novos patamares de agressividade militar e econômica.

