Estudo da Fiocruz revela desigualdade brutal na saúde das comunidades quilombolas

Estudo da Fiocruz revela desigualdade brutal na saúde das comunidades quilombolas

Um estudo divulgado no final de 2025 pela Fiocruz Bahia, em parceria com a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), expôs a precariedade da saúde quilombola no Brasil. Os dados revelam que essa população morre mais de doenças tratáveis, como diarreia e desnutrição, do que o restante da população de baixa renda. A pesquisa utilizou a base de dados da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros para cruzar informações do CadÚnico com o Sistema de Informação sobre Mortalidade, evidenciando lacunas profundas nas políticas públicas e no atendimento do SUS.

Além das doenças evitáveis, a violência letal é um fator crítico: a taxa de homicídios entre quilombolas é de 22,1 por 100 mil habitantes, significativamente superior à média da população em vulnerabilidade social. Especialistas atribuem esses números à falta de titulação das terras e ao aumento dos conflitos fundiários, que atuam como determinantes sociais de saúde. A ausência de diagnóstico também é alarmante, com altos índices de mortes por causas mal definidas, especialmente nas regiões Sudeste e Sul.

Desigualdades estruturais em números

O boletim “Saúde Quilombola no Brasil” destaca a distância entre a realidade das comunidades e os serviços básicos:

  • Saneamento Básico: Apenas 9% das casas quilombolas possuem rede de esgoto, e mais de 21% não têm sequer banheiro.

  • Acesso à Saúde: No Norte do país, a distância média para a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima é de 43 km, dificultando o atendimento de urgência.

  • Mortalidade por Diarreia: No Sul, a taxa é de 4,7 por 100 mil habitantes entre quilombolas, enquanto no restante da população analisada é de 1,5.

  • Conflitos de Terra: Entre 2018 e 2022, 32 lideranças foram assassinadas, reforçando a relação entre insegurança territorial e perda de vidas.

Resistência e saberes tradicionais

Diante da ausência do Estado, as comunidades sobrevivem através da medicina tradicional e do conhecimento ancestral. Lideranças como Ana Eugênia da Silva e Mateus Brito reforçam que o território é a base da cura e da segurança. Para eles, o reconhecimento das parteiras, rezadeiras e erveiros, aliado à titulação das terras e à inclusão do quesito “quilombola” nas fichas de atendimento do SUS, são passos urgentes para garantir a equidade e interromper o ciclo de mortes evitáveis que assola essas comunidades há séculos.

 

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